• HENRIQUE KOIFMAN (também postado no LinkedIn)

Tecnologia feminina


Entre 1900 e mais ou menos a metade da segunda década do século XX, os automóveis elétricos chegaram a representar até 40% dos modelos em circulação nos EUA. Àquela época, eles eram anunciados por seus vários fabricantes – como mostram os anúncios que ilustram este artigo – como “ideais para o público feminino”, pois não precisavam de força bruta (manivelas) para serem ligados. Além disso, esses carros eram “limpos”, não somente pela ausência da desagradável fumaça que emporcalhava tudo, como também porque não costumavam quebrar no meio da rua – algo comum aos movidos a gasolina ou a vapor (as outras tecnologias dominantes da época) e, assim, não obrigavam suas motoristas a sujarem as mãos para que voltassem a funcionar. Aqueles carros a bateria já tinham autonomia de pouco mais de 100 km por carga, o que para uso urbano era mais do que suficiente.

Pensando no significado e no que envolve o 8 de março (Dia Internacional da Mulher), vale lembrar que, na quela época, as mulheres da florescente classe média alta das grandes cidades americanas passavam uma ter autonomia até então inexistente, saindo “desacompanhadas” às ruas, vestindo calças compridas e até fumando em público (suprema ousadia!). E, como parte dessa autonomia, com o devido trocadilho, passaram também a dirigir seus próprios carros, de preferência, elétricos – cá entre nós, bem mais práticos, racionais e descomplicados.

Sem querer fazer disso um galanteio (ainda se usa essa palavra?), acho que os automóveis elétricos traziam uma tecnologia tipicamente feminina, enquanto os a gasolina e a vapor – frágeis, barulhentos, mais danosos e menos confiáveis – eram tipicamente masculinos.

Os carros com motor a explosão, no entanto, acabaram se tornando o padrão no mercado americano (e mundial) e, já na década de 1920, os elétricos praticamente sumiram das ruas. Em parte, essa opção pelos motores barulhentos e fumarentos foi feita por causa do custo – gasolina era comparativamente mais barata que eletricidade. Em outra, pela possibilidade de se abastecer o carro fora das grandes cidades, afinal, a eletrificação do interior dos EUA só se tornaria realmente expressiva depois da Grande Depressão.

O fato é que, durante o restante do século XX e até hoje, impera a tal “opção pela tecnologia masculina”. Ou melhor, imperava, pois o avanço dos modelos elétricos no mundo, desta vez, parece ser irreversível. Não somente por alguns daqueles problemas que já eram claros nos mil novecentos e poucos, mas por uma série de outras questões que só foram sendo percebidas mais tarde. O fato é que, também nisso, as mulheres tinham razão. O mercado – não por acaso, um substantivo masculino – é que levou mais de 100 anos para entender isso.

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