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O melhor no WSL de Saquarema sai das ondas para o off-road

  • 26 de jun.
  • 5 min de leitura

Por Alexandre Kacelnik

Fotos de divulgação e internet


Diego Fernandes, COO da GWM, e Yago Dora - Divulgação
Diego Fernandes, COO da GWM, e Yago Dora - Divulgação

Yago Dora foi à praia de carona e voltou dirigindo um SUV novinho em folha. Isso porque a montadora chinesa GWM (Great Wall Motor) havia anunciado na semana passada que daria um Tank 300 ao vencedor (entre homens e mulheres, quem tivesse a melhor nota nas baterias finais) da etapa brasileira do circuito mundial de surfe (WSL), realizada em Saquarema (RJ), entre19 e 26 (hoje) de junho. Superando o italiano Leonardo Fioravanti, Yago, atual campeão mundial, faturou a etapa e o carro(acima) .



O Tank 300 (acima) é um jipão de 394 cv de potência e 75,5 kgfm de torque, e se anuncia como o primeiro veículo híbrido plug-in (PHEV) flex do mundo. Se não for a melhor, etanol e eletricidade é uma das combinações mais ambientalmente corretas do mercado, muito afinada com a mensagem do surfe profissional de respeitar e preservar a natureza como um todo e os oceanos em particular (veja informações completas sobre o modelo abaixo).



Somando o valor do prêmio ao campeão ao valor do carro (R$ 342 mil), o (a) surfista vencedor (a) vai levar para casa cerca de R$ 750 mil.



Os carros e o surf

Associar modelos e versões de automóveis ao esporte, aventura (e, indiretamente, à juventude) é quase um clichê no marketing do segmento, e não é de hoje. Daí que montadoras patrocinarem provas e atletas de surf, como faz hoje a GWM, é relativamente comum – e isso inclui, claro, oferecer a vencedores um veículo como parte da premiação.


De memória, cito aqui versões “surfeiras” históricas, como o VW Passat Surf (1978, no anúncio) e as algo longevas Parati Surf e a Saveiro Surf (abaixo). Lá fora, coisa semelhante costuma acontecer. Com uma rápida pesquisa (via IA), listo abaixo algumas dessas séries e versões, lançadas aqui no Brasil e lá fora, com a indicação (aproximada) do período em que foram produzidas.



Modelo

Série especial

Quando

Fiat Uno

Surf

1995–1997, Europa

Fiat Palio Weekend

Adventure Surf

2004–2006 (Brasil).

VW New Beetle / Fusca

Surf Edition

O "Besouro" original é, por si só, um dos ícones do surfe, especialmente nos EUA. E seus herdeiros tiveram algumas edições temáticas entre 1996 e 2015, variando conforme o mercado.

Citroën C4 Cactus

Rip Curl

Lançada em 2016, inicialmente apresentada no Geneva Motor Show, e posteriormente comercializada em vários mercados.

Citroën C3 A

Primeira geração da parceria em 2017; outras versões surgiram em 2018–2021, incluindo o C3 Aircross Surf Edition by Rip Curl (na foto).

Renault Kangoo

Rip Curl

2005–2008.

Renault Captur

Rip Curl

2018–2019.

Renault Sandero

Rip Curl

2014–2015.

Peugeot 206

Quiksilver

2003–2006, uma das edições mais populares da marca.

Peugeot 307

Quiksilver

2004–2007.

Peugeot Partner

Quiksilver

2005–2008.

Peugeot 106

Kid Surf

Meados da década de 1990 (cerca de 1995–1997).

Jeep Renegade

WSL

2019, em comemoração à parceria com a World Surf League.

Ford Ka

Trail Surf

Final dos anos 2000 (cerca de 2008–2010, dependendo do país).

Ford Ranger

Splash

Originalmente 1993–1998, com forte apelo jovem e praiano; o nome foi retomado em edições recentes, mas sem foco específico no surf.

Mini Cooper

Beachcomber


Conceito apresentado em 2010.

Nissan X-Trail

Surfcamp

Aproximadamente 2005–2007.

É curioso (e se alguém souber o motivo, por favor, me diga) é que boa parte dessas séries especiais foi criada por montadoras francesas. E a parceria entre marcas do segmento do Surf, como Quiksilver e Rip Curl, com modelos Peugeot, Citroën e Renault chegou mesmo a ser uma tendência na Europa durante a primeira década dos anos 2000.




Remando a prancha para trás, para contextualizar

Pode parecer pouco para quem está acostumado a ler nos noticiários quanto ganham astros do futebol, do tênis ou da NBA, mas para mim, que trabalhei entre 1988 e 1994 no Alternativa Surf, a etapa brasileira do circuito mundial que era disputada na praia da Barra, no Rio de Janeiro, é um valor de (como diria o jogador Bruno Henrique) outro patamar.


Até a entrada da Mesbla (dona da marca Alternativa) como patrocinadora de uma etapa do circuito mundial, as etapas levavam o nome de marcas de surfwear, de nicho, como Hang Loose, Quiksilver, Billabong, Rip Curl e por aí vai. Alternativa também era uma marca de surfwear, mas uma marca de uma loja de departamentos.

A Mesbla subverteu a ordem global, pois nessa época, nas boas lojas de departamentos dos EUA, as Macy’s da vida, havia seções que vendiam as grandes marcas de surfwear, mas não marcas próprias. A influência do way of life do surfe até para quem morava a centenas de quilômetros do litoral – e não havia piscinas de ondas – era muito evidente e tinha que ser (com o perdão do trocadilho) surfada pelo mainstream.


O pessoal do surfe, mais até os brasileiros que os australianos, que mandavam na ASP (que depois veio a se chamar WSL) olhavam enviesado para nós, os haoles (ou pregos, como o carioca gostava de falar). As pautas que a gente, da In Press Assessoria de Imprensa, propunha, eram risíveis para a comunidade então fechada do surfe, mas eles não entendiam – ou não se importavam – que a gente estava levando o surfe para o espectador comum, que muitos anos depois a Globo passou a chamar internamente de Homer Simpson.



O autor veste a camisa, um troféu da época em que cobria os campeonatos de surf no Rio
O autor veste a camisa, um troféu da época em que cobria os campeonatos de surf no Rio

O Alternativa Surf tinha cobertura (paga) do Esporte Espetacular, que acabava gerando matérias ‘espontâneas’ no Jornal Nacional e Fantástico. O patrocinador convidava Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de Minas, enfim, os principais jornais do Brasil. Vale lembrar que não havia internet e o SporTV tem esse nome desde 1994.


Dezenas de milhares de pessoas se aglomeravam para ver astros do surfe, como Tom Curren Tom Carroll e depois Kelly Slater – que conquistou durante a etapa do Rio, em 1992, o primeiro dos seus 11 títulos mundiais – competirem contra os heróis locais Fábio Gouveia, Teco Padaratz e Victor Ribas.


A multidão estava na praia do Arpoador em 1975, quando o Rio sediou um dos eventos internacionais que serviram como teste para a criação do circuito mundial, mas era olhada – pela mídia e pelo mercado – como uma tribo exótica. Hoje, milhares se deslocam de todo o país para Saquarema, onde o público ao longo dos dias de evento chega as 400 mil pessoas. Mas o surfe é esporte olímpico, e o Brasil tem cinco campeões mundiais (Gabriel Medina, Adriano de Souza, Ítalo Ferreira, Felipe Toledo e Yago Dora), que venceram oito das últimas onze edições do circuito. A etapa brasileira se chama Vivo Rio Pro, e a Vivo não vende parafina.


A Mesbla, apesar da sua visão de futuro na área do surfe, quebrou ainda no século passado; a streetwear do skate superou em muito o surfwear na indústria da moda. E o surfe definitivamente é um esporte mainstream, com piscinas de ondas em condomínios premium-master-plus, onde pegar uma onda custa o mesmo que um transatlântico de sushi, e executivos C-Level postam suas surftrips com orgulho.


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